quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pesquisas eleitorais e urnas eletrônicas: quais são mais confiáveis?

José Rodrigues Filho*

No dia seguinte ao das eleições municipais do corrente ano, os institutos de pesquisa já comentavam sobre o sucesso das pesquisas eleitorais em todo o país. Observa-se, contudo, que no tocante às pesquisas de boca de urna, o sucesso não foi tanto assim. Ademais, surge uma grande preocupação que precisa ser discutida em relação à pesquisa de boca de urna e a contagem final de votos pelas urnas eletrônicas.

A relação entre a pesquisa de boca de urna e a contagem de votos nestas eleições municipais apresenta algumas características que não parecem ser diferentes do que aconteceu nas eleições americanas de 2004. Naquele ano, as pesquisas de boca de urnas, em vários estados americanos, apontavam a vitória do candidato John Kerry, porém quando os votos foram contados, naqueles estados, a vitória foi do Presidente Bush.

Para matemáticos e estatísticos americanos, a pesquisa de boca de urna representa uma realidade confirmada, visto que o eleitor já votou ou está na fila para votar. Portanto, não deve haver diferença entre a pesquisa de boca de urna e a contagem final de votos. Face ao exposto, o bom senso nos mostra que a probabilidade de uma pesquisa realizada dias antes das eleições, nos dá uma previsão do comportamento do eleitor, enquanto que a pesquisa de boca de urna retrata uma realidade confirmada – o eleitor já votou. Mas não foi isso que aconteceu tanto nos Estados Unidos como nestas eleições municipais no Brasil.

Por outro lado, não há como negar o rigor científico das pesquisas, baseadas em modelos estatísticos e matemáticos. Contudo, no caso das pesquisas eleitorais, antes das eleições, é preciso compreender que muitas vezes elas são utilizadas como instrumentos de manipulação pelos grupos dominantes. Embora se trate de previsões antecipadas, a própria mídia muitas vezes delas se utiliza para menosprezar candidatos sem expressão eleitoral, que podem ter desempenho afetado por tais pesquisas.

No caso dos Estados Unidos, a imprensa burguesa que antes tinha considerado as pesquisas de boca de urna, com a vitória do presidente Bush, começou a criticá-las e defender os resultados das urnas. Contudo, a blogesfera americana considerou a eleição de 2004 como sendo uma eleição roubada, através das urnas eletrônicas. Alguns analíticos e cientistas políticos são da mesma opinião. Por conta disto, a urna eletrônica americana, similar a que é utilizada no Brasil, foi proibida na maioria dos estados americanos, assim como foi banida recentemente na Holanda. Comenta-se que nem o Paraguai quer mais utilizar a nossa urna eletrônica, diante da falta de segurança.

Mas, o que foi que aconteceu no último 5 de outubro? Para a nossa surpresa, as pesquisas de boca de urna não batem com os resultados apurados nos principais centros urbanos, situando-se, em alguns casos, até fora das margens de erros. De acordo com o quadro abaixo, ou as pesquisas estão erradas, o que parece improvável, ou a contagem de votos parece ter beneficiado alguns candidatos e prejudicado outros.
Com estes resultados, a pesquisa de boca de urna deve ser utilizada de forma abrangente no segundo turno, pois os candidatos com disputas acirradas devem ser convencidos, no final das eleições, de que perderam ou ganharam as eleições, sem erros. Os candidatos Marta Suplicy e Marcio Lacerda devem exigir mais de uma pesquisa de boca de urna, pois irão para uma disputa bastante acirrada. João da Costa, em Recife, já ganhou as eleições, mas tem uma pesquisa de boca de urna bastante diferente da apuração de seus votos. Outro caso que nos chama a atenção é o de Fortaleza, onde Luizianne Lins do PT liderava as pesquisas de boca de urnas com 53%, mas ganhou a eleição no primeiro turno de forma apertada, com apenas 50,16%.
O nosso sistema eleitoral, desenhado pelas elites políticas dominantes, é dotado de uma série de perversidades e rituais, a exemplo das pesquisas eleitorais antecipadas, muitas vezes utilizadas pela mídia para influenciar os resultados de eleições. Diante da inexistência de uma tecnologia segura não se sabe por que no Brasil a classe política adotou as urnas eletrônicas, que têm servido para reforçar o poder da Justiça eleitoral em detrimento de uma redução da cidadania, uma vez que não há mais um controle do ato de votar pelo próprio eleitor. Ademais, a venda de votos parece ser um ato mais importante do que o ato de votar.

Na cidade de João Pessoa, por exemplo, dois dias depois das eleições multidões foram às ruas exigir o pagamento pela venda de votos, visto que lhes foi informado de que a tecnologia permitia identificar que o voto tinha sido dado ao candidato comprador de votos. O protesto foi feito pela falta de pagamento do voto. O momento é chegado para que a classe política repense a questão da tecnologia, democracia e a cidadania.
O controle do voto no Brasil pela Justiça eleitoral e pelas empresas de tecnologia de informação é uma questão que precisa ser discutida amplamente pela sociedade. Tornando-se um alienado, parece não haver diferença para o eleitor entre vender o voto ou votar sem seu controle. O controle do voto deve ser feito única e exclusivamente pelo eleitor.
Os candidatos que vão para o segundo turno devem exigir a proibição de pesquisas antecipadas, mas a pesquisa de boca de urna deve ser realizada por mais de um instituto. Além disso, medidas mais simples devem ser tomadas para testar a confiabilidade ou não das urnas eletrônicas. Isto será discutido no próximo texto.

Quadro 1: Resultados de Pesquisa de Boca de Urna e a Apuração de Votos

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Cidade/Candidato Partido Boca de Urna % Apuração %
Porto Alegre IBOPE
- José Fogaça PMDB 39 + 43
- Maria do Rosário PT 23 - 22
Belo Horizonte IBOPE
- Marcio Lacerda PSB 45 - 43
- Leonardo Quintão PMDB 38 + 41

Recife IBOPE
-Joao da Costa PT 54 - 51
- Mendonça Filho PMDB 24 24

São Paulo IBOPE
- Marta Suplicy PT 36 - 32
- Kassab DEM 32 + 33
- Geraldo Alckim PSDB 21 + 22
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Fonte: Dados divulgados pela imprensa.

* José Rodrigues Filho foi pesquisador nas Universidades de Harvard e Johns Hopkins. Atualmente é professor da Universidade Federal da Paraíba.

Texto publicado inicialmente pelo site congressoemfoco, conforme abaixo:

http://congressoemfoco.ig.com.br/Noticia.aspx?id=25026

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