terça-feira, 9 de outubro de 2018

Bolsonaro Castigado pela “McDonaldização” do Voto Eletrônico


Logo que foi confirmado o segundo turno das eleições de 2018, o presidenciável JAIR BOLSONARO (PSL) questionou as urnas eletrônicas, dizendo que se não fossem os problemas ocorridos durante a votação teria sido eleito presidente no primeiro turno. O capitão deputado Jair Bolsonaro falou de algo muito importante – confiança do voto eletrônico, que merece a atenção de todos os eleitores. A imprensa da elite dominante, que sempre foi omissa em relação à falta de segurança do voto eletrônico, criticou o deputado.

O mundo desenvolvido está à espera de uma tecnologia de voto eletrônico confiável, sendo várias as preocupações da comunidade científica nacional e internacional em relação à falta de segurança e confiança do voto eletrônico, que sempre foi um mistério em nosso país. O discurso de confiança é da Justiça Eleitoral e não da voz do povo ou dos especialistas da tecnologia, ou ainda proveniente de pesquisas. Gastou-se muito com a tecnologia de voto eletrônico no Brasil, mas não existem pesquisas sobre a sua utilização, a não ser a constatação de que se trata de uma tecnologia de alto custo e de pouco significado para a democracia e a sociedade. Temos o voto eletrônico, mas a compra de votos, abstenções e votos nulos, por exemplo, aumentaram no país.

Portanto, a confiança dada à tecnologia de voto eletrônico sempre foi questionada no mundo inteiro. Durante anos a Justiça Eleitoral no Brasil desenvolveu uma campanha de marketing para institucionalizar a confiança nas urnas eletrônicas. Vários foram os pronunciamentos de representantes da Justiça Eleitoral afirmando que as urnas são seguras e confiáveis, mesmo contrariando a literatura sobre segurança e confiança nas tecnologias de informação. A questão de confiança nas urnas eletrônicas precisa ser analisada no Brasil de forma aprofundada e não de forma institucionalizada, como aconteceu. Por conta deste marketing perverso foi possível levar a sociedade a acreditar e confiar na urna eletrônica. Até bem pouco tempo, a urna eletrônica era orgulho da sociedade brasileira. Acontece, porém, que a corrupção, a impunidade, o abuso de poder, a violência, o crime, as desigualdades e outros interesses, inclusive corporativos, precisam ser considerados numa análise da confiança no voto eletrônico no Brasil. A questão é complexa e não pode ser revolvida pelas vozes do abuso de poder de algumas instituições.

Nos campos da economia e administração, a confiança visa à maximização de lucros. Nesse caso, tenta-se se criar confiança em produtos como forma de multiplicar lucros. No caso da computação e da tecnologia de informação implica ter tecnologias confiáveis. Esse discurso interessa aos vendedores de tecnologia. Assim sendo, o questionamento do Deputado Bolsonaro precisa ser respondido, além de outras questões tais como: A quem interessa o discurso da confiança? Como se ter confiança no que não se conhece? Por que a Justiça Eleitoral contraria a comunidade científica e não deixa que ela ateste a segura e confiança de nossas urnas?

Enquanto parece ser um tabu se falar em voto eletrônico no Brasil, a indústria do voto eletrônico se expande vertiginosamente, sofisticando cada vez mais a sua tecnologia, num mercado que envolve milhões de dólares. A Alemanha proibiu o voto eletrônico por ser inconstitucional. A Holanda também interrompeu o uso desta tecnologia, ao provar a sua falta de segurança. Fraudes em urnas eletrônicas foram evidenciadas em vários países. Se as democracias tradicionais não utilizam esta tecnologia, por que no Brasil houve esta expansão do voto eletrônico? Quais os interesses em se manter um mercado de características monopolista tão promissor, que incentiva a privatização e a terceirização? 

No caso do Brasil, constata-se que os princípios básicos da democracia foram destruídos, ao retirar do eleitor a sua capacidade de controlar o seu voto, cuja contagem é hoje entregue a empresas privadas e terceirizadas, com o apoio da Justiça Eleitoral. Estamos assistindo a “McDonaldização” do voto eletrônico no âmbito da Justiça Eleitoral, ou seja, a utilização de princípios burocráticos da indústria de refeições rápidas (fast-food) da cadeia de alimentação da McDonald’s, aplicados ao voto eletrônico. Através disto o eleitor perde o direito de controle de como se dá a contagem de votos, onde o que importa não é mais este princípio democrático, mas a rapidez de contagem de votos, que parece deixar os eleitores satisfeitos, como os que recebem brindes ou descontos ao comer um hambúrguer ou “Big-Mac” na cadeia da McDonald’s.

No Brasil a indústria do voto eletrônico surgiu a todo vapor, sem a sinalização de que questões éticas sejam consideradas. Os eleitores brasileiros estão submetidos aos horrores da tecnologia biométrica, recentemente testada no Haiti e usada, há muitos anos, por Lombroso, na Itália, para identificar criminosos por traços físicos. Por conta desta tecnologia de voto eletrônico, a Justiça Eleitoral no Brasil tornou-se muito poderosa, quando se compara a administração de eleições brasileiras com a de outros países. O próximo governo deve copiar modelos de administração de eleições nas democracias avançadas e acabar com esta Justiça Eleitoral caríssima que se proliferou nas repúblicas bananas da América Latina, com traços de “McJustiça”.

Em trabalho elaborado em conjunto com pesquisadores da Inglaterra e Canada, há dez anos, divulgado em revista cientifica internacional, afirmamos que o voto eletrônico é um grande risco para a democracia do Brasil. Nos últimos dias dois presidenciáveis levantaram esta questão. Não votei em nenhum dos dois no primeiro turno, mas considero serem pertinentes e sérios seus questionamentos.


José Rodrigues Filho é Professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas universidades de Harvard e Johns Hopkins (USA). Recentemente foi professor visitante no Departamento de Telecomunicações e Estudos da Informação da Michigan State University.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Conluios Entre os Três Poderes no Brasil – Privilégios e Corrupção


Embora se tenha falado muito sobre conluios entres os três poderes no Brasil, estava se criando uma expectativa de isto poderia desaparecer com os reclamos da sociedade nas ruas por mais justiça, fim da impunidade e o combate à corrupção. Em que pese os méritos da Operação Lava Jato, quando procuradores e juízes foram vangloriados, a empolgação começa a arrefecer, a partir do momento em que se descobre que os privilégios daqueles que se dizem combater a corrupção não diminíram. Várias empresas foram destruídas, a exemplo da Odebrecht, mas o país mantém uma casta de privilégiados, sobretudo no poder judiciário, que precisa ser analisada diante da estarrecedora falta de transparëncia.

Infelizmente a imoralidade destes privilégios tornou-se mais acintosa nos últimos dias, com o pedido de aumento de ministros do Supremo Tribunal Federal. Para alguns políticos, economistas e a sociedade em geral, este pedido de aumento é indefensável e totalmente injustificado, diante da situação em que se encontra o país, com mais de 13 milhões de desempregados e a grande maioria recebendo salário mínimo. É a justiça mais bem paga do mundo praticando a injustiça social. É mais um tipo de privilégio abominável. Com tantos privilégios não se pode pensar em reduzir as altas taxas de assassinatos, estupros, roubos e feminicídios que assolam o país de norte a sul.

Com um Presidente da Republica com denúncias criminais e um Congresso com vários parlamentares enganchados na Lava-Jato começam a surgir na imprensa insinuações de que o momento é propício para o Judiciário reivindicar um aumento salarial em conluio com os poderes executivo e legislativo. Isto merece uma profunda investigação. Será que estamos diante de um conluio com troca de favores? Falar de privilégios e corrupção nos poderes executivo e legislativo é dispensável por já ser bastante conhecidos, porém não é o caso no ambito do poder judiciário, onde pouco se fala de suas falhas, muito menos de corrupção e privilégios..

Será que estes privilégios não são formas camufladas de corrupção contra o erário público? Se as estatísticas mostram que a corrupção no poder judiciário é evidente em vários países do mundo, sobretudo na Africa e América Latina, não podemos isentar o Brasil, onde os privilégios são abundantes e opacos. Não há dúvidas de que o poder judiciário no Brasil tornou-se muito poderoso nos últimos anos e sua interferencia nos demais poderes acontece costumeiramente.. A Justiça Eleitoral no Brasil, por exemplo, tornou-se muito poderosa, quando se compara a administração de eleições brasileiras com a de outros países. O próximo governo deve copiar os modelos de administração de eleições nas democracias mais avançadas e acabar com esta justiça eleitoral caríssima que se proliferou nas repúblicas bananas da America  Latina.

É difícil compreender como um sistema legal dotado de privilégios opacos possa servir para trazer a justiça para uma sociedade tão desigual. Como pode uma casta de privilegiados, que está entre os mais ricos do país, trazer justiça para a maioria dos mais pobres, incluindo uma pobreza abundante, vivenciando demasiados sacrifícios? Quando se diz que pobre e ladrão de galinha é preso no Brasil, mas os ricos podem desrespeitar a justiça, estamos falando deste sistema injusto, perverso e cheio de privilégios na sua forma e construção. A Operação Lava Lato abriu algumas esperanças, mas os privilégios do poder judiciário estão se tornando tão evidentes, que dificilmente se pode acreditar em mudanças. Além disto, num país de ladrões parece que todos podem ser presos numa instancia e, noutra superior, todos podem ser soltos.

Por mais que se diga que os encontros entre os poderes, as vezes fora da agenda, estão acontecendo dentro de um diálogo institucional, para tratar de imoralidades como o aumento do poder judiciário, os que estão no andar de baixo começam a perceber como os conluios entre os poderes ainda continuam uma vergonha nacional. Voltar as ruas contra tantos privilégios é um sacrífico que a sociedade, mais uma vez, não pode descartar. O combate à corrupção deve continuar, baseando-se em princípios da moralidade, igualdade e justiça social.  Destruir empresas envolvidas na corrupção, mantendo-se uma casta de privilegiados aplicando a justiça é um exercício fútil e ilusório. A República está destruída, com os privilégios e a corrupção quase intocáveis. 

terça-feira, 31 de julho de 2018

Os Presidenciáveis e o Sistema Financeiro do Brasil


Vem de longe a percepção do poder destrutivo do Sistema Financeiro do Brasil, que funciona numa obscuridade total, dificultando a avaliação de questões relacionadas com um modelo de finanças sustentáveis. As denúncias de corrupção no sistema financeiro público são alarmantes no Brasil. Comenta-se que o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) investiu mais de 30 bilhões de dólares na corrupção de megaprojetos em países pobres da África e América Latina. São mencionados os péssimos exemplos de investimentos feitos pelo BNDES, que afetam a distribuição de renda e a injustiça social. Um deles, bastante criticado, é o empréstimo de alguns milhões subsidiados, a uma taxa de juros muito baixa, que beneficiou o apresentador de TV, Luciano Huck, para a compra de um avião privado para ser usado poucas vezes por semana, num percurso limitado. Enquanto a maioria dos trabalhadores brasileiros, nas grandes cidades, gasta mais de duas horas e tomam dois ou três veículos desconfortáveis para chegarem ao trabalho, é inaceitável que um avião privado, subsidiado com dinheiro público, não tenha uma utilização bem justificada.

O que se esperar de um sistema financeiro público envolvido com práticas corruptas e uma governança insustentável e de um sistema financeiro privado dominado por menos de meia dúzia de grandes bancos, com lucros exorbitantes, cobrando taxas de juros imorais dos contribuintes? Este sistema financeiro só causa instabilidades, sendo o seu custo muito elevado para a sociedade. Nem sempre o dinheiro deste sistema está disponível para projetos sociais e ecológicos, por exemplo. O que se pode esperar deste sistema são crises múltiplas, destruição ambiental, desigualdades crescentes e desemprego em massa. Observem o discurso neoliberal dos últimos anos enfatizando a destruição do bem-estar social, atacando os sindicatos com regulações draconianas, de tal modo que a liberdade humana é transferida para a liberdade do mercado, através de ações coercitivas do Estado. No mundo inteiro e principalmente no Brasil o regime financeiro produziu uma concentração de capital e o poder econômico nas mãos de poucos que lucram muito, enquanto os cidadãos mais fracos são incapazes de confrontar as classes dominantes para que a voz sobre suas necessidades seja ouvida.

Será que os nossos candidatos presidenciáveis vão propor algumas mudanças do nosso sistema financeiro, a exemplo do que está acontecendo em vários países, sobretudo na Europa? Os sistemas financeiros tradicionais são insustentáveis e novos enfoques estão sendo propostos para integrar a sustentabilidade nos sistemas financeiros, evitando que seus custos sejam transferidos e socializados pela sociedade, devido às más práticas destas instituições. A imprensa comenta que alguns partidos e grupos políticos já buscam se alinhar com o candidato que, possivelmente, vai manter o status quo e que deveria ser rejeitado pelos eleitores. Infelizmente a influencia do capital tem sido decisivo nas eleições brasileiras, pois a prioridade é o mercado e não a democracia, a justiça social e as práticas éticas dos candidatos.  Sem mudanças e compromissos claros, o que for eleito, de esquerda ou direita, só vai trazer mais sofrimento para a sociedade.

Para alguns pesquisadores brasileiros, através da ideia de meritocracia emergiu no campo das finanças uma convergência das elites financeiras. Estes grupos dominantes, com práticas validadas pela meritocracia, legitimadas pelas especialidades e aquisição de qualificação educacional como a chave do sucesso são hoje os “experts” e tomadores de decisões nas grandes corporações financeiras do país e em parte da academia, todos responsáveis pela reprodução da estrutura de poder, exclusão e violência simbólica, sociologicamente falando.

Neste sentido, é impossível se pensar em finanças sustentáveis no Brasil com uma meritocracia de especialistas agindo contra os princípios básicos de desenvolvimento sustentável. O desmatamento da Mata Atlântica brasileira, da Floresta Amazônica, sobretudo em 2017, e a explosão da corrupção no sistema financeiro do Brasil exigem que as finanças sustentáveis sejam tratadas diferentemente da forma como as elites dominantes têm preconizado até agora, enfatizando a obscuridade e relegando a comunidade e outros stakeholders beneficiários.

Já foi dito há muito tempo que os sistemas financeiros são incompatíveis com a sustentabilidade, razão pela qual uma reflexão profunda é requerida, considerando que o setor afeta diretamente a humanidade e o planeta Terra. Neste caso, os presidenciáveis deveriam discutir o assunto com a sociedade brasileira, garantindo que, no mínimo, as ações da Lava Jato sejam fortalecidas no setor, considerando as constantes denúncias que começam a mostrar a ponta do iceberg da corrupção. Além dos casos de polícia e justiça, o sistema financeiro do Brasil é carente de uma discussão sobre finanças sustentáveis. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Partidos de Esquerda e Direita no Brasil – Muitas Bocas Arrodeando o Cocho Político


Um grupo de renomados juristas brasileiros pediram o cancelamento do registro de vários partidos políticos, sob o argumento de que eles abandonaram "princípios republicanos, democráticos e constitucionais para abraçar o crime organizado”. A esquerda, que sempre propôs uma transformação socialista da sociedade – uma sociedade sem propriedade privada e livre de corrupção, crimes e exploração, está tão envolvida com a corrupção quanto a direita. Embora a crítica de Marx e Lenin à sociedade capitalista não tenha sido feita na linguagem da corrupção, ambos estiveram preocupados com a corrupção (suborno de líderes sindicais) nos movimentos socialistas. Se estivessem vivos hoje, com certeza estariam reformulando a teoria marxista e a mais-valia para incluir a corrupção como um dos elementos de exploração dos trabalhadores.

A ação destes juristas merece todo a apoio da sociedade, embora alguns filiados destes partidos estejam tentando defender o indefensável. Diante da existência de alguns políticos de conduta e vida pública ilibada nestes partidos é possível ainda mostrar que a função dos partidos políticos é tornar a política como uma atividade nobre de uma democracia e não um cocho político destinado ao esconderijo de ladrões, que saqueiam os cofres públicos e enterram o País na mais profunda vala. Comenta-se que os ladrões de hoje causam inveja aos ladroes que já morreram e estão no inferno.

A sociedade brasileira sempre testemunhou a corrupção praticada pelos cachorros grandes da política como uma norma enraizada na política brasileira, engendrada pela máfia no poder. Muitos políticos desonestos deveriam estar trancados nas cadeias por um longo tempo. A cada eleição que se aproxima estes parasitas, responsáveis por vários escândalos, se aproximam dos eleitores em busca de votos, confiantes de que temos memória curta, tratando todos nós como estúpidos. Infelizmente muitos, ao invés de não acreditar no blefe deles e remete-los à lixeira da história política, continuam reelegendo-os como seus representantes. Com os focinhos firmemente presos ao cocho, estas elites políticas espoliam e roubam os cidadãos decentes.

Além das aspectos jurídicos, o tema da corrupção e crime organizado suscita várias questões relevantes que precisam ser estudadas no Brasil, tais como corrupção política, corrupção econômica e a relação entre corrupção e violência. O crime organizado nos partidos políticos no Brasil é algo reconhecido pela sociedade desde há muito tempo, mas nunca investigado pelo sistema legal do país. Em texto anterior, foi comentado que estas organizações criminosas se proliferaram a partir da compra de votos. Por sua vez, a aprovação de contas partidárias e de políticos corruptos pela Justiça Eleitoral no Brasil pode ser vista como uma forna de legitimação destas organizações criminosas.

A emergência da corrupção como objeto de estudo dentro da academia se deu através de um longo caminho. Inicialmente era vista como um tabu, sendo raramente mencionada nas discussões dos problemas governamentais. Isto perdurou até o final dos anos 90s, quando se começou a se fazer pesquisa sobre corrupção. Por outro lado, sempre se passou a ideia de que a corrupção era predominante e até inevitável nas sociedades menos desenvolvidas, a exemplo das colonias Ocidentais e outras partes menos desenvolvidas do mundo. Acontece que este tabu foi quebrado, trazendo o termo para o reino político (ciência política), ou seja, corrupção política. Este tabu ainda hoje é muito visível através dos trabalhos de instituições internacionais que, em geral, apontam a corrupção dos países em desenvolvimento, mas raramente tratam do assunto nos países ricos. Com os Paradises Papers ficou demostrado que a corrupção é maior nos países ricos do que nos países pobres.

Portanto, corrupção é hoje um conceito multidimensional estudado através de diferentes disciplinas acadêmicas. Assim sendo, temos o conceito de corrupção na perspectiva econômica, sociológica e legal. O Brasil, como um dos países mais corruptos do mundo é, nos dias de hoje, um grande laboratório para se estudar o tema, considerando as diferentes perspectivas. Diante da grande quantidade de partidos políticos no Brasil e os escândalos registrados, é de extrema importância estudar a corrupção praticada por seus membros. Como um dos países mais violento do mundo nos últimos anos, é lamentável a falta de estudos mostrando a relação entre violência e corrupção, como no caso do Estado do Rio de Janeiro.

Corrupção é uma doença contagiosa que se alastra rapidamente, sobretudo quando começa na cúpula dos poderes, como no Brasil. Não é fácil combate-la, mas é preciso mostrar o quanto é prejudicial ao desenvolvimento de uma nação. Lamentavelmente, comenta-se que para manter “a impunidade das classes dirigentes corruptas do País, todos os poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) foram acionados para o desencadeamento de uma grande operação abafa, capaz de assegurar o “status quo”. Não há dúvidas de que a sociedade percebe ações nesta direção. Contudo, é animador a iniciativa dos nossos juristas e é necessário identificar as bocas dos que continuam arrodeando o cocho político, com tamanha voracidade e ganancia despudorada. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Protestos de Rua e a Legalização da Sonegação de Impostos nos Paraísos Fiscais


Em texto publicado pelo Jornal The Guardian, no Reino Unido, o ativista Micah White questionou por que as ruas não estavam cheias de protestos contra os paraísos fiscais, após as revelações dos chamados Paradise Papers, há poucos dias, ao contrário do que aconteceu o ano passado, quando apareceram as revelações bombásticas dos Panama Papers que, em pouco tempo, arregimentaram milhares de pessoas nas ruas em Iceland, levando a renúncia do Primeiro Ministro, Sigmundur Gunnlaugsson, que escondia dinheiro nos paraísos fiscais.  Não era o que esperavam os ativistas e líderes dos Paradise Papers, que perceberam muita divulgação pela imprensa, mas nenhum levante nas ruas. Como já afirmamos neste blog, trouxeram grandes revelações, mas pouco reconhecimento.

Porém, para Micah White, que foi líder do movimento de Ocupação de Wall Street (Ocupy Wall Street), e percebeu o arrefecimento do movimento de ruas, não há razões para desespero, pois estamos em pleno século 21 e os ativistas em todo o mundo estão re-imaginando como deve ser o ativismo revolucionário deste século. Historicamente tivemos várias revoluções contra as desigualdades sociais e injustiças, a exemplo da Revolução Francesa, Revolução Russa, Revolução Chinesa e outras, que trouxeram dramáticos protestos de ruas e o consequente colapso dos regimes. Para White, a revolução dos tempos atuais tem que ser diferente e, com certeza, ela vai acontecer, podendo ser uma força cruel que vai aterrorizar essas elites. Contudo, a história nos mostra que as revoluções sempre aconteceram com muito derramamento de sangue.

Os problemas são os mesmos – maiores desigualdades e injustiças brutais. Os Paradise Papers nos mostram o quão brutal é esta desigualdade, que divide o mundo, em dois mundos tão desiguais. Temos um mundo muito pequeno, de cerca de 200 mil pessoas (população de uma cidade média brasileira) com  indivíduos ultra-ricos e o outro mundo de 7 bilhões de pessoas (5 vezes a população da China) ao lado, em condições bastante sofridas. Com isto, o nosso  mundo é dominado por uma plutocracia, ou seja, uma pequena quantidade de pessoas ricas que criam as regras de como nos governar. Isto está correto? Isto é a democracia que queremos? Portanto, em  qualquer parte do mundo, as pessoas estão sendo oprimidas por uma classe social diminuta de riquíssimas elites que, indevidamente, controlam nossos governos, corporações, universidades e a cultura em geral. Estas evidencias vão delinear um movimento social global, que pode ser terrível para nossas elites.

Podemos ver concretamente o que acontece no Brasil atual, com um governo que mudou a legislação trabalhista para trazer mais sofrimento para os trabalhadores e mais riqueza para esta elite. Acredito que todos são favoráveis a uma mudança das nossas leis trabalhista, mas não para massacrar os trabalhadores. A Previdência Social pode também ser mudada, mas não para penalizar só os trabalhadores. Quando se trata de corrupção, há sinais claros de se querer mantê-la. Tudo é feito em nome da estabilidade econômica, ou seja, reforçar os paraísos fiscais e tudo que seja de interesse das elites. Muitas vezes nos revoltamos, mas somos responsáveis pela escolha de nossos líderes. A cada eleição parece que estamos escolhendo o pior.

Portanto, as celebridades e os super-ricos estão longe de nós. Para que serve protestos de ruas, se as nossas ruas não são as ruas deles? Eles conseguiram construir a democracia deles e, nós, a maioria, não conseguimos construir a nossa. Eles conseguiram construir seus paraísos, relaxando em ilhas privadas, enquanto nossas crianças estão em escolas super-lotadas, nossos estudantes com débitos altíssimos dos créditos educativos, nossa população sem assistência médica, alimentação inadequada, drogados sem esperança e nossas cidades em decadência. Pior do que isto, eles ainda querem que sejamos bem educados para cuidar dos bens deles, sem querer pagar por nossa educação.  Eles ainda querem que assistamos aos filmes deles e compremos seus produtos e software, tendo a classe média decadente como um consumidor leal.

Por fim, eles conseguiram criar um sistema cruel, dito como legal, embora anti-ético e imoral. Através de batalhões de advogados e contadores conseguiram fazer com que bilhões deste ou daquele país possa ser transferido para os paraísos fiscais. Enquanto a população dos países de origem sofrem com a retirada de recursos, a população dos paraísos fiscais se beneficia. Sem o pagamento de impostos nos países de origem, não se tem recursos para a saúde, educação e outras demandas sociais.  É partir daqui que tudo pode ser mudado. É inaceitável que um ladrão de galinha ou um pai de família que roubou algum alimento para seus filhos ou para si mesmo esteja preso nas nossas cadeias, enquanto esta elite que sonega e rouba bilhões não esteja enfrentando a justiça.

Neste sentido, seria ideal que o ativismo revolucionário deste século, juntamente com a sociedade em geral, pudessem criar um sistema legal para punir os crimes financeiros contra a humanidade. Assim sendo, o velho modelo de ficar raivoso protestando nas ruas poderia ser substituído por um novo enfoque que criasse um regime global legal em que as cortes internacionais pudessem acionar aqueles que sonegam impostos e cometem crimes financeiros. Mesmo vivendo num mundo diferente, esta elite ainda está no mesmo planeta que nós e os ativistas devem assegurar que não existe lugar para esconde-los. Para Micah White, se isto acontecer, este é o maior presente dos Paradise Papers para a sociedade e que só os ativistas podem fazer isto acontecer.

No Brasil, com o desaparecimento do barulho das panelas, das vozes nas ruas, a desmoralização da esquerda, ausência de democracia e as investidas para sufocar o combate à corrupção, é imprevisível o tipo de revolução que poderemos ter para combater as grandes injustiças e desigualdades sociais.  Isto já está nos amedrontado, considerando o aumento da violência, que não está dissociado do contexto político e econômico, engendrado por estas elites perversas.