quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Dos Alimentos Que Matam Para Os Que Curam – Por uma Política de Segurança Alimentar e Nutricional


Em recente artigo no New York Times, intitulado “Nosso Alimento está Matando Muitos de Nós” (Our Food Is Killing Too Many of Us), os autores trataram os alimentos do ponto de vista nutricional, alegando que uma dieta pobre é a principal causa de mortalidade nos Estados Unidos, causando mais de meio milhão de mortes por ano. Foi estimado que 10 fatores dietéticos causam cerca de mil mortes diariamente, só de doenças do coração e diabéticos. Os custos com estas duas doenças são elevadíssimas em todo o mundo. Para os autores do trabalho, o custo econômico total da obesidade é estimado em US$ 1.72 trilhões por ano, ou 9.3 do Produto Interno Bruto.

Enquanto o trabalho acima enfatiza as questões nutricionais dos alimentos, neste texto a segurança alimentar é enfatizada, embora os dois temas devam ser tratados conjuntamente. O controle de qualidade de alimentos está mais voltado para a segurança alimentar, que no Brasil ainda é pobre, mesmo quando existe algum controle. Há cerca de 25 anos atrás, elaboramos um trabalho intitulado “Controle e Qualidade de Alimentos em Saúde Pública”, o qual parece atual, tendo sido citado recentemente em duas dissertações de mestrados, citadas abaixo.

O conceito de qualidade de alimentos é complexo. No mercado significa um apelo de vendas ou de economia para o consumidor. Para as revistas de nutrição o conceito de qualidade de alimentos significa um apelo à boa saúde e para os toxicologistas qualidade quer dizer segurança, já que os alimentos devem ser inofensivos. Assim sendo, a segurança de alimentos tem sido definida como sendo uma prova razoável de certeza de que os alimentos são sanitariamente adequados, reconhecendo-se a relação que existe entre qualidade de produto e qualidade de vida das pessoas. Mesmo sendo complexa a medida de qualidade de alimentos, não se pode desprezar o controle de qualidade e a relação que os alimentos têm com a saúde das pessoas. Portanto, o produto alimentício que põe em risco a saúde não tem qualidade.

Numa das dissertações de mestrado, acima citadas, a pesquisadora Tarciara Magley da Fonseca Pereira, da Universidade Federal Rural do Semiárido, Rio Grande do Norte, analisou a relação entre as boas práticas de fabricação e a qualidade do queijo de coalho produzido no município de São Rafael – RN. Os resultados de seu trabalho mostraram que as queijarias de São Rafael não faziam uso de boas práticas de fabricação, tornando os produtos impróprios para o consumo, diante da contaminação de bactérias e vírus mortíferos como o Staphylococcus aureus, Salmonella, além dos coliformes e outros.  Porém, com a capacitação dos pequenos produtores e uso de uma gestão de boas práticas de fabricação e pasteurização do leite, a qualidade microbiológica do queijo de coalho melhorou substancialmente, tornando-se próprio para o consumo humano.

Por outro lado, a pesquisadora Jéssica de Aragão Freire Ferreira, em sua dissertação de mestrado na Escola de Saúde Pública da USP, enfatizou que “um alimento seguro ou inócuo é aquele livre ou que contenha níveis aceitáveis de contaminantes de origem biológica, química ou física, sendo, portanto, incapaz de oferecer riscos ou danos à saúde do consumidor”. Dados do Ministério da Saúde no período de 2000 a 2015, que tratavam de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA) foram analisados no seu trabalho. Segundo a autora, dados da Organização Mundial de Saúde mostram que mais de um terço da população mundial, incluindo os países desenvolvidos, “é acometida por surtos de DTA anualmente, embora a maioria dos casos não seja notificada às autoridades sanitárias locais”.

Os surtos de DTA resultaram em mais de duzentos mil doentes e 67 óbitos. Para a autora o principal local de ocorrência dos surtos de DTA são as residências, “seguidas pelos restaurantes/padarias, creches e escolas, sendo a bactéria Salmonella a mais presente, principalmente em produtos derivado de ovos. A pesquisa critica a subnotificação de casos no Brasil e faz um apelo para o desenvolvimento de medidas políticas, educativas, legislativas e de pesquisa, voltadas para o controle de surtos de origem alimentar. Assim, no Brasil informações sobre doenças e mortes causadas por alimentos são limitadas.

Felizmente, com os avanços da ciência da nutrição e de outras especialidades tais como a ciência e tecnologia de alimentos, gestão de alimentos e outras, é possível se ter uma alimentação saudável e de níveis nutricionais adequados, tornando os alimentos uma espécie de medicina para a cura de muitas doenças. Com uma liderança governamental junto ao setor privado é possível promover um melhor bem-estar e baixar os custos de cuidados de saúde. O governo tem que começar a taxar de forma elevada todos os sucos e bebidas açucarados, bem como uma série de alimentos nocivos e ofensivos à saúde e subsidiar as empresas que produzem alimentos de proteção à saúde. Isto já é praticado contra as indústrias de tabaco e bebidas alcoólicas. Além disto, os níveis de aditivos ofensivos à saúde tais como sódio, açúcar e gorduras trans podem ser reduzidos através de decisões voluntárias das indústrias ou de regulação de padrões de segurança dos alimentos.

Assim sendo, precisamos mudar dos alimentos que matam para os alimentos que curam. Recente texto no site Eco-Debate não só tratou dos agrotóxicos e da “comida que nos matam” como ofereceu uma extensa literatura sobre o tema. Com o surpreende aumento de uso de agrotóxicos no Brasil no corrente ano, o discurso de sustentabilidade da agricultura brasileira não é só falso, como afeta a agroindústria e vários setores da cadeia de suprimento de alimentos.

A sociedade brasileira está numa encruzilhada e deve rapidamente fazer exigências dos órgãos governamentais e do setor agrícola. Precisamos de mudanças rápidas de mentalidade que requerem uma intervenção alimentar nas escolas e em casa e na venda de produtos ofensivos, como parte do trabalho de uma nutrição adequada, que venha fortalecer a confiança nos alimentos, considerando que hoje a mão que nos alimenta nos põe em risco alarmante. Estamos vendo os custos sociais e econômicos do COVID-19 e vamos nos amedrontar com o envenenamento de uma sociedade.  

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Marketing Sustentável Inovando uma Agroindústria Sustentável


Nunca o marketing foi tão importante para expandir práticas sustentáveis, tanto na agroindústria como na agricultura, não só nos países desenvolvidos, mas principalmente nos países em desenvolvimento como o Brasil. A Europa tem uma longa história do uso de marketing nestas áreas, principalmente na sua agricultura sustentável, considerando o consumerismo verde e tradições do regionalismo culinário. Vale mencionar que estamos falando de um marketing sustentável e não do marketing tradicional, cujo propósito é completamente diferente.

Se a agricultura é mais do que produzir commodities agrícolas para o mercado global, a agroindústria tem que avançar ainda mais e considerar que produz mercadorias públicas não alimentares importantes para a comunidade – paisagem, preservação de tradições, associação com a sua região e seu povo. Alimento e terra estão intimamente relacionados com a satisfação pessoal, tradições culturais e a qualidade de vida. Assim sendo, a integração da cultura, sabor, lugar, solo e clima complementam a qualidade do alimento.

Pouco é conhecido sobre o potencial do marketing regional no mundo, apesar do aumento da demanda no mercado por qualidades associadas com o regional nos países europeus, Canadá e Estados Unidos. Está mais do que claro que este apoio filosófico para uma agroindústria sustentável deve se alinhar com os sinais do mercado, ajudando o setor realizar mudanças. Além disto, a próxima geração de empreendedores do setor deve ser versátil tanto em marketing sustentável como na produção. Vale lembrar o que foi dito por um agricultor canadense: “Tornamo-nos especialistas na produção e péssimos no marketing. Aprendendo esta lição, estamos tentando vender nossos produtos no mercado de forma inteligente, dando ao consumidor o que ele deseja”.

Neste sentido, torna-se necessário medir as iniciativas de marketing, quando se tenta produzir de forma correta e sustentável. Sustentabilidade, como conceito holístico, englobando um meio ambiente saudável, equidade social e lucros econômicos, nem sempre é atendida por qualquer ação ou iniciativa de marketing sustentável. No caso do Brasil, é difícil falar numa agricultura sustentável, considerando as questões históricas e os acontecimentos dos últimos anos relacionados com o desmatamento da Amazônia e o aumento de agrotóxicos no país. Contudo, no campo da agroindústria é possível desenvolver algumas atividades para fortalecer o marketing sustentável dentro das empresas, visando inovações que levem a sustentabilidade.

O propósito aqui é explorar o marketing sustentável e incorporar motivações, orientações e impactos da inovação de alimentos, criando estratégias efetivas de marketing e planos de apoio a sustentabilidade da agroindústria. Isto numa visão de longo prazo, que inclua múltiplas escalas (local, nacional e global), visando diferentes possibilidades para o futuro dos alimentos. O que se pretende é criar e promover o futuro dos alimentos desejados pelas organizações, comunidade e o mundo. Temos que identificar os objetivos dos consumidores e suas necessidades e desenvolver um autêntico posicionamento, distribuição, promoção e comunicações para os sistemas da uma agroindústria sustentável.

Torna-se necessário investigar como as práticas sustentáveis interagem e coevoluem com as iniciativas de marketing sustentável, visando ligar as inovações institucionais na agroindústria com os mercados. Precisa-se acompanhar como as empresas estão se movimentando em direção às práticas sustentáveis, através de uma mobilização coletiva de seus participantes, tecnologias, recursos e construção de sua capacidade. Assim sendo, é necessário a adoção de enfoques que criem ligações com os mercados, padrões internacionais, técnicas ou modelos de marketing sustentável e educação nutricional, considerando que tanto a comunidade como a dinâmica internacional influenciam inovações institucionais em países em desenvolvimento.

Está havendo um crescente consenso público de que a agroindústria deva se desenvolver dentro de um modelo de intensificação sustentável, com o propósito de atender o grande desafio dos “alimentos seguros para todos”, requerendo inovações do atual sistema agroindustrial. Tradicionalmente o setor focou no desenvolvimento, adoção e difusão de tecnologias voltadas para aumentar produtividade, enfatizando pesquisa e desenvolvimento, dando pouca atenção a outros componentes além da tecnologia.

Portanto, o conhecimento e as práticas de inovação, incluindo a inovação social, nos leva a uma visão mais ampla dos sistemas agroalimentares, com a capacidade de unir outros atores destes sistemas, visando inovações além das tecnologias, tornando-se organizados para o acesso de novas oportunidades de mercados e poder de negociação nestes mercados. Em resumo, as inovações para uma agroindústria sustentável são necessárias tanto do ponto de vista tecnológico quanto institucional, envolvendo práticas da sustentabilidade, incluindo o marketing sustentável.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Necessidades de Informação para Consumidores dos Sistemas Alimentares - Fechando as Lacunas de uma Agroindústria Sustentável


José Rodrigues Filho *
Euda Marques Gouveia Rodrigues **


O conceito de sistema alimentar está passando por uma rápida evolução de significado. Antes focava basicamente na necessidade de alimentar populações crescentes, limitando-se à produção, distribuição e consumo. Mais recentemente, o conceito mais holístico de sistema alimentar ganha força entre pesquisadores e tomadores de decisão, de acordo com o Painel Global de Agricultura e Sistema Alimentar para Nutrição (Global Panel on Agriculture and Food System for Nutrition – 2016), com uma perspectiva que integra todos os elementos (meio ambiente, pessoas, inputs,  processos, infraestrutura, instituições, etc.) e  atividades relacionadas com a produção, distribuição, preparação e consumo de alimentos, incluindo os resultados socioeconômicos e ambientais.

Com uma interpretação ampliada dos sistemas alimentares, especialistas de diversas disciplinas e tradições intelectuais estão cada vez mais interessados nas questões relacionadas com a natureza e origem da insustentabilidade de nossos modernos sistema alimentares. Apesar de toda mecanização da agricultura e modernas ferramentas de tecnologias de informação, os dados atualmente existentes e disponíveis nos sistemas alimentares tendem a ser fragmentados e incompletos. Esta falta de dados e informações, de forma compreensiva, impede nossa habilidade de compreender de forma holística as dinâmicas e complexidade dos sistemas alimentares. Por esta razão, alguns autores já chegaram a afirmar que nossas fábricas de alimentos são lugares de “manipulações obscuras”. No caso do Brasil, a agroindústria demorou muito a fornecer um mínimo de informações de seus produtos aos consumidores, as quais são ainda incompletas e falhas.

Contudo, o discurso de sustentabilidade está influenciando os sistemas alimentares em todos os países do mundo em direção a transições e transformações, de forma rápida, com importantes implicações para crescentes desafios, incluindo a necessidade urgente de melhor entender os caminhos de sua evolução e recuperar a confiança da mão que nos alimenta, hoje em risco. Neste sentido, as empresas da cadeia de suprimentos da agroindústria estão enfrentando novas expectativas e buscando comunicar o desempenho social, econômico e ambiental de seus negócios para consumidores dentro da cadeia de suprimentos e consumidores como clientes finais. Novas iniciativas de sustentabilidade estão acontecendo como as etiquetas de informações nos produtos.

Não há dúvidas de que no período pós-pandemia, o discurso de sustentabilidade vai ser intensificado e a agroindústria brasileira vai enfrentar grandes desafios. Com o chamado Green Deal no mercado europeu, produtos contaminados com agrotóxicos e oriundos da Amazônia, dificilmente entrarão na Europa. Aliás, o setor agrícola do Brasil não é bem visto no mundo em termos de segurança alimentar, levando a uma intensificação da rastreabilidade da produção, certificação e outras informações não existentes em nossos produtos.

Num mercado competitivo, em que as responsabilidades integradas em termos sociais, econômicas e ambientais tornam-se um pré-requisito para um bom empreendedorismo, consideração desta visão integrada é um dos fatores críticos de sucesso para o bom sucesso de longo prazo do setor de alimentos. Com a integração de sistemas computacionais e melhoria das informações é possível proporcionar soluções para se medir e avaliar a sustentabilidade de produtos ao longo da cadeia de suprimentos. A informação adquirida das características do produto pode ser usada para a tomada de decisão dentro das empresas e para a comunicação de práticas sustentáveis para clientes e consumidores, resultando numa competição crescente das empresas, cadeias de suprimentos e o próprio setor, satisfazendo as necessidades de informação de clientes e consumidores e garantias da sustentabilidade do produto.

Desta feita, desenvolver um modelo de serviço de informação no setor da agroindústria é de fundamental importância e urgência, devendo contemplar segurança alimentar (representando a dimensão de sustentabilidade social), qualidade (representando a dimensão de sustentabilidade econômica) e potencial de informações globais (representando a dimensão de sustentabilidade ambiental). Este modelo foi selecionado pelas seguintes razões: 1) há uma necessidade de garantias da segurança alimentar, como requisito para a confiança do consumidor e aceitação do mercado; 2) no mercado altamente competitivo da agroindústria, a qualidade torna-se uma precondição para a sustentabilidade econômica das empresas do setor da agroindústria; 3) os consumidores demonstram interesses crescentes nos impactos de alertas globais dos produtos alimentares e esperam que varejistas proporcionem informações e garantias dos produtos comercializados.

Assim sendo, torna-se necessário investigar a infraestrutura de informação do setor da agroindústria e as lacunas existentes, considerando as principais dimensões de sustentabilidade, com sugestões de futuras necessidades de pesquisa com foco informacional nas áreas de logística, rastreabilidade, segurança alimentar, qualidade e outros aspectos da sustentabilidade. Num momento de grandes preocupações com as questões sanitárias, o setor da agroindústria deve se preocupar cada vez mais com a segurança alimentar visando atender as exigências dos mercados e consumidores. A literatura mostra cada vez mais as inseguranças dos alimentos, o medo e pânico universal, que podem ser atenuados através de infraestruturas de informação e da digitalização visando recuperar a confiança de todos.  

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá, onde desenvolveu trabalho sobre Sustentabilidade e Tecnologia da Informação em Saúde.   https://jrodriguesfilho.blogspot.com/
** Euda Marques Gouveia Rodrigues é graduada em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com experiencia em plataformas dos sistemas de informação bibliotecários e necessidades de informação da comunidade.  

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Agroindústria Sustentável: Segurança Alimentar e Nutricional e Transições para a Sustentabilidade


Jose Rodrigues Filho *
Maria da Guia Rodrigues Pessoa **
Robson Rogério Pessoa Coelho ***

O discurso de sustentabilidade está em evidência na literatura da agroindústria e agronegócios, assim como em várias outras áreas do conhecimento. É preciso deixar claro que este discurso é facilmente contestado, principalmente no campo de agricultura, razão pela qual temos que desenvolver argumentos sólidos para sua credibilidade. Até recentemente os trabalhos em sustentabilidade e alimentos eram geralmente aplicados a partes do sistema, por exemplo produção, quando se tratava de agricultura sustentável, com enfoques que enfatizavam a dimensão ambiental de sustentabilidade, negligenciando as dimensões econômicas e sociais. 

Neste trabalho uma tentativa foi feita para indicar os principais tópicos em discussão no campo da agroindústria, alertando o setor sobre a importância da segurança alimentar na busca de transições para a sustentabilidade. Trata-se de conceitos ou paradigmas diferentes e, por conta disto, são em geral discutidos separadamente. Contudo, temos que evitar esta separação e tratar os dois conceitos conjuntamente visando acelerar a necessária transição para sistemas agroalimentares sustentáveis. Neste sentido, temos que buscar na literatura luzes que possam contribuir para se entender a relação entre os mercados agroalimentares, segurança alimentar e nutricional e sustentabilidade. Portanto, os sérios desafios que temos pela frente é desenvolver mercados agroalimentares que sejam eficientes, competitivos, accessíveis e nutricionais, que contribuam para transições de sustentabilidade dos sistemas agroalimentares. Agroindústria brasileira deve alavancar atividades, estudos e pesquisas nesta direção. 

Não há espaço aqui para tratar da complexidade da segurança alimentar e nutricional cada vez mais reconhecida numa perspectiva sistêmica, com foco no sistema de alimentos, como mencionado pelo Painel de Especialistas de Alto Nível (High Level Panel of Experts – HLPE) em Segurança Alimentar e Nutricional. Enfatiza-se, ainda, a integração da Segurança Alimentar e Nutricional, considerando seus  quatro pilares ou dimensões, a saber: 1) disponibilidade de alimentos; 2) acesso aos alimentos; 3) uso dos alimentos e 4) estabilidade na disponibilidade de alimentos. Diante desta complexidade, os profissionais de nutrição, com uma visão de sistemas socioeconômicos direcionados para a saúde e nutrição humana, tem desempenhado atividades interdisciplinares voltadas para os desafios dos sistemas alimentares. A colaboração destes profissionais é importante na agricultura, produção de alimentos, processamento, marketing, vendas, cuidados de saúde, saúde pública, gestão de serviços alimentares, além das atividades de ensino e pesquisa. Enfim, a colaboração deles é indispensável ao apoio das mudanças necessárias para os sistemas agroalimentares sustentáveis. 

Ao longo dos anos, as políticas alimentares, principalmente na agricultura, não levavam em consideração o campo de conhecimento da nutrição. Além disto, como mencionado acima, ainda existe uma desconexão entre sustentabilidade e segurança alimentar. O Painel de Especialista (HLPE), acima citado, faz um chamamento para a integração de enfoques de sustentabilidade com a segurança alimentar e nutricional, ao considerar que um sistema alimentar que não assegura segurança alimentar e uma adequada nutrição não pode ser chamado de sustentável. 

Novamente, não temos espaço aqui para avançar na importância do discurso de sustentabilidade nas várias áreas de conhecimento, incluindo sistemas alimentares, limitando-nos apenas a resumir sua origem. Historicamente, o conceito de sustentabilidade resultou de trabalhos iniciais da comunidade científica internacional sobre desenvolvimento sustentável. Muitos trabalhos sobre sustentabilidade surgiram nos anos de 1980, sobretudo com as discussões internacionais em torno do meio ambiente e desenvolvimento e o renomado trabalho da Comissão Bruntland (Bruntland World Commission  on Environment and Development), estabelecida em 1983 e que produziu o seu relatório em 1987 (Bruntland Report – Our common Future). Foi neste relatório que surgiu o conceito de desenvolvimento sustentável, dando ênfase igual ao meio ambiente, sociedade e economia, visto como os pilares chaves em que o desenvolvimento sustentável deve ser apoiado. Este conceito foi aplicado na agricultura e partes do sistema de alimentos, com a preocupação de que o aumento da produção de alimentos nas nações industrializadas e desenvolvidas prejudicaria a base de uma produção futura.

Neste trabalho estamos adotando uma visão holística de sistemas alimentares e como relacioná-la com a segurança alimentar e os objetivos nutricionais, enfatizando as dimensões econômicas e sociais. Assim sendo, temos que considerar a sustentabilidade dos sistemas de alimentos ligada a segurança dos alimentos numa perspectiva mais ampla – de uma perspectiva ambiental para uma perspectiva que englobe as dimensões sociais e econômicas. Nesta nova perspectiva, estamos considerando as dimensões de sustentabilidade interagindo com as quatro dimensões de segurança de alimentos, acima citadas, incluindo ainda a segurança nutricional.

Metade da população mundial é afetada pela insegurança alimentar (obesidade, deficiências de micronutrientes) mostrando-nos a necessidade de se reformar os atuais sistemas de alimentos. Acreditamos que a conexão do discurso de segurança alimentar e nutricional com a sustentabilidade do sistema alimentar é mais do que necessário para se criar uma narrativa coerente para uma transição sustentável. Esta conexão é necessária para uma segurança alimentar e nutricional de longo prazo, considerando as dimensões ou pilares da segurança alimentar como o resultado central de sistemas alimentares sustentáveis. 

*Jose Rodrigues Filho é professor da Universidade Federal da Paraíba. Foi pesquisador nas Universidades de Johns Hopkins e Harvard. Recentemente foi professor visitante na McMaster University, Canadá, onde desenvolveu trabalho sobre Sustentabilidade e Tecnologia da Informação em Saúde.
** Maria da Guia Rodrigues Pessoa é nutricionista, com experiencia executiva em Gestão de Alimentos, Marketing e Pesquisa em Dietas Sustentáveis.
*** Robson Rogério Pessoa Coelho é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutor em Engenharia de Alimentos e experiencia em Armazenamento de Alimentos.





quarta-feira, 8 de julho de 2020

Insustentabilidade do SUS: Subfinanciamento, Corrupção e Má Gestão


Diante de suas sólidas bases teóricas de fundação, o Sistema Único de Saúde (SUS) deveria ser um dos sistemas mais sustentáveis do país. Não se tornou sustentável por conta de alguns fatores que descreveremos abaixo, mesmo assim tornou-se um símbolo nacional, assim como o Serviço Nacional de Saúde (NHS, sigla do sistema de saúde da Inglaterra), e se reergueram dos escombros para enfrentar a pandemia do Coronavírus.  O NHS foi criado no governo socialista do Reino Unido após a segunda guerra mundial e sempre foi visto como sendo o melhor sistema de saúde do mundo. O SUS sofreu influência do NHS e foi criado por sanitaristas de esquerda do Brasil em 1988.

Os governos de direita tanto no Reino Unido quanto no Brasil, incluindo o governo Bolsonaro, tudo fizeram para destruir estes sistemas. Mas agora com a Pandemia do Coronavírus, perceberam que os hospitais privados, que são privilegiados com os recursos públicos, não tinham condições de enfrentar esta pandemia. O primeiro ministro do Reino Unido já ofereceu alguns bilhões de dólares ao NHS, depois que foi atingido pelo vírus. Saúde é um bem público e assim deve ser entendido.

Em 2016, o governo Temer comemorou a aprovação pelo Congresso de uma PEC que limitou o teto de gastos, incluindo o SUS. Isto pode ser visto como uma ação criminosa, considerando a redução de direitos da população à saúde e à dignidade humana, além da violência e desrespeito à vida humana. Com a perda de bilhões, a partir de 2017, o SUS vem mostrando o crescimento da mortalidade causada pela dengue, zika e chicungunha e a sua decadência. Com o coronavírus, não se fala mais na dengue, que está matando como nunca. Se o SUS não está dando conta da dengue, como enfrentar a pandemia do coronavírus? Nesta hora nos causa inveja o espírito público do povo britânico, onde nenhum político é contra o Sistema Nacional de Saúde (NHS, sigla em inglês), ao contrário de nossos políticos que decretaram a morte do SUS. Como salvar o povo destas epidemias, aliviando sofrimentos?

As influências políticas na gestão de saúde no Brasil são desastrosas, a partir da indicação de seus dirigentes que, em geral, não tem a qualificação adequada. Isto começa pelos cargos de ministros da saúde, que nem sempre tiveram uma formação nas nossas Escolas de Saúde Pública, entre as melhores do mundo. Os profissionais destas Escolas têm uma formação profunda em Gestão e Planejamento de Saúde, Políticas Públicas e Sociais, Saúde Pública e Coletiva, além de estudos epidemiológicos.  Precisamos de um ministro da saúde com esta formação. Não confundir medicina com saúde. Os idealizadores do SUS, por exemplo, foram profissionais de saúde pública que raramente tiveram a chance de dirigir o sistema. Diante do poderio médico e das influências nocivas, as políticas de saúde no Brasil sempre foram desastrosas, apesar da ligação do SUS com nossas Escolas de Saúde Pública. Assim sendo, a má gestão e a corrupção do sistema ao longo dos anos não foram exceções.

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro desrespeita e debocha da ciência e a academia, como prática dos populistas de ultradireita. A indicação de seus três ministros da educação é um deboche à academia. As universidades foram menosprezadas, xingadas e sucateadas. No âmbito do meio ambiente a tragédia teve reconhecimento mundial, afetando a economia do país com os boicotes sofridos. Com o Coronavírus, sua prática foi criminosa, segundo profissionais e órgãos de saúde, além de insinuar uma fantasia nas preocupações mundiais sobre um vírus que assombra o mundo.

A melhor notícia deste ano foi o reconhecimento mundial de que o Brasil tem os melhores profissionais de saúde pública do mundo, levando ao acordo do Ministério da Saúde com a Universidade de Oxford e o Laboratório AstraZeneca para transferência de tecnologia de uma vacina contra o coronavirus. O mundo inteiro está apostando nesta vacina, que deverá ser produzida a partir do final do ano ou início de 2021. Foi a ciência brasileira, construída ao longo de décadas, e a qualidade dos cientistas brasileiros que permitiu este acordo, mesmo num governo que nega a ciência e a importância de seus cientistas.

Mesmo com esta qualidade na saúde pública, temos militares a frente do Ministério da Saúde insistindo na cloroquina, já denunciada pelo TCU como superfaturada pelo Exército. Pior, são militares que não entendem de saúde pública. Por ter tido muita influência de sanitaristas de esquerda, que foram contra a ditadura militar, é possível que o governo Bolsonaro queira transformar o SUS em barracas militares. Os milhares de profissionais do sistema que, em muitas ocasiões, foram chamados de heróis e heroínas, talvez não estejam percebendo que o papel deles e do SUS, em salvar vidas com ações públicas e coletivas, pode ser transformado em interesses puramente econômicos de mercado e de bolsa de valores.

Esperamos que o futuro presidente numa pós-pandemia torne o SUS sustentável, dentro do espírito para o qual foi criado. A classe política e o próprio povo no mundo inteiro começam a dar valor a um sistema de saúde pública e coletiva. Boris Johnson, de direita e primeiro ministro da Inglaterra, saiu da UTI querendo investir mais no seu sistema de saúde (NHS). Já Bernie Sanders, há poucos meses, perdeu a indicação de candidato a Presidente nos Estados Unidos, por defender taxar os mais ricos, defendendo saúde para todos e educação universitária para todos como uma responsabilidade do Estado. Vendo os caixões em valas, os americanos hoje são favoráveis a saúde para todos. Parece ser necessário taxar as grandes fortunas no Brasil para proteger as pessoas.

Com razão, no atual governo, muitos estão criticando a destruição da Amazônia, da nossa democracia, de nosso arcabouço legal e o autoritarismo, mas poucos estão falando sobre a destruição do SUS, que está no caminho do sepultamento com as milhares de vítimas do coronavírus. Vamos defender o que deveria ser um símbolo de sustentabilidade e orgulho de todos brasileiros, ou seja, o SUS e a saúde pública e coletiva para todos e não transformá-lo num puxadinho dos militares. Governos de esquerda ou direita devem aumentar os recursos do SUS, torná-lo mais democrático e universal e nunca pensarem na sua destruição.