sexta-feira, 27 de julho de 2007

Evolução de Sistemas de Informação



Não obstante a evolução da disciplina Sistemas de Informação, muitos colegas ainda estão presos aos velhos conceitos desta área de conhecimento. Surgida, inicialmente, nas Escolas de Computação, a disciplina penetra depois nas Escolas de Administração dos Estados Unidos, quando houve uma forte influencia gerencial em Sistemas de Informação. Portanto, a visão rígida (hard) de sistemas de informação durou muitos anos, diante da forte influência da computação e da matemática, advindas das Escolas de Computação e da Ciência da Administração.

A partir dos anos 80s é que a disciplina sofre uma forte influencia da área de comportamento organizacional e, a partir dos anos 90s, da Economia e do Marketing. Por conta disto, a disciplina sempre foi orientada pelo enfoque positivista e dominada pelos profissionais da área de computação. Contudo, não se pode esquecer que já no final dos anos 80, a disciplina começa a receber os primeiros ataques, como os que foram feitos ao enfoque positivista, a partir do início do século passado.

Portanto, mais recentemente surgem duas visões em Sistemas de Informação: uma rígida (hard), influenciada pela ciência da computação e outra leve (soft), influenciada principalmente pela ciências comportamentais. Com isto foi possível considerar Sistemas de Informação como parte de um sistema social e não apenas como um software. Infelizmente, para muitos colegas, Sistemas de Informação ainda é visto como uma ferramenta, um soft ou programa, sendo os ensinamentos neste campo muito limitado dentro desta perspectiva. Foi muita luta para tirar a disciplina das amarras dos que desejam considerá-la como aplicações computacionais.

Apesar da interação entre Sistemas de Informação e a Organização, é aqui onde se depara com a problemática maior. Se para muitos a visão de Sistemas de Informação é limitada, a de organização é mais ainda, uma vez que o conceito de organização para muita gente é um conceito estático e rígido. Por conta disto, a pesquisa em Sistemas de Informação no Brasil tem pouca ou nenhuma utilidade. Portanto, ao contrário dos países desenvolvidos, os nossos pesquisadores precisam avançar muito nas teorias da organização, de modo que a nossa pesquisa em Sistemas de Informação seja mais consistente.

Com o surgimento da Internet, os estudos de Sistemas de Informação já vão além dos conceitos de organização, penetrando no conceito de sociedade. Mais recentemente, surgiu uma outra disciplina, denominada de Informática Comunitária e semelhante aos Sistemas de Informação, mas que se preocupa com o estudo da aplicação das Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs) relacionado com as questões sociais, econômicas, políticos e culturais para alcance dos objetivos comunitários. Assim, enquanto os sistemas de informação se limitam aos setores do governo e das corporações, os sistemas de informação comunitários tem uma visão mais ampla, buscando ampliar a democracia e o desenvolvimento econômico e social. Mesmo assim, não se pode estudar sistemas de informação, perdendo de vista a necessidade de integrar a tecnologia com o trabalho de justiça social, da mesma forma que a Informática Comunitária está integrando os insights da Sociologia, Psicologia Social, Antropologia, entre outros campos do conhecimento, visando o atendimento das comunidades.

O quadro abaixo e os textos indicados facilitam a compreensão da evolução da disciplina Sistemas de Informação.




Textos:
1. Rodrigues Filho, J.; Ludmer, G. Sistema de Informação – Que Ciência é Essa? Revista de Gestão da Tecnologia e Sistemas de Informação
Journal of Information Systems and Technology Management,Vol. 2, No. 2, 2005, pp. 151-166 ISSN online: 1807-1775
Disponível:
www.jistem.fea.usp.br/index.php/jistem/article/viewPDFInterstitial/19/17

2. Rodrigues Filho, J. O Conceito de Organização na Pesquisa em Sistemas de Informação no Brasil e Países Escandinavo.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Importancia da Pesquisa Qualitativa em SI

4º CONTECSI - International Conference on Information Systems and Technology Management


Realizou-se recentemente na FEA/USP o 4º CONTECSI com a presença de 232 pessoas entre personalidades, professores e pesquisadores do exterior, de países tais como: Inglaterra, Estados Unidos, França, Portugal, México, Chile, Venezuela, Argentina, Colômbia, entre outros. Do Brasil estiveram presentes pesquisadores e profissionais, dentre os quais, autores de 16 Estados e do Distrito Federal. Dentre os temas tratados, foram destacados os de Governo Eletrônico e Comércio Eletrônico, além de vários outros.








O Prof. Dr. Michael Myers da Universidade de Auckland (foto acima), Nova Zelândia, Presidente da AIS – Association for Information Systems, como um dos principais Key-Speakers do evento comentou sobre a natureza da disciplina Sistemas de Informação bem como da importância da Pesquisa Qualitativa nesta área de conhecimento. Como debatedor do tema, consideramos a importância da Pesquisa Qualitativa em Sistemas de Informação, que ainda é muito tênue no Brasil.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Consequencias Perversas
E-Voting in Brazil – The Risks to Democracy

Rodrigues Filho, Jose; Alexander, Cynthia C; Batista, Luciano C.

Este trabalho foi apresentado no 2º Workshop Internacional realizado na Austria em 2006 conforme abaixo (2nd International Workshop on E-Voting, Proceedings: Electronic Voting 2006, Bregenz, Austria, 2006) :



http://www.e-voting.cc/topics/Resources/

A falta de segurança das urnas eletrônicas é um assunto que vem sendo, desde há algum tempo, explorado por acadêmicos e pesquisadores brasileiros e internacionais. O trabalho acima critica o Voto Eletrônico no Brasil, além das questões de segurança. Portanto outras questões foram levantadas e que merecem ser consideradas, uma vez que tratam da alienação, divisão digital e dos enfoques de mercado e da participação dos eleitores no desenvolvimento de um sistema de votação eletrônica. Visto que tais questões não tinham sido ainda levantadas na literatura sobre o Voto Eletrônico no Brasil, o trabalho acima teve uma grande repercussão na mídia européia.

segunda-feira, 23 de julho de 2007


Cidadania aos Cacos

Reforma eleitoral e o voto eletrônico

José Rodrigues Filho







Neste texto, a tentativa é feita para tratar das conseqüências perversas das reformas partidárias e eleitorais ocorridas no Brasil, visto que tais reformas visaram mais a atender interesses dos políticos e seus partidos e da própria Justiça Eleitoral, do que do eleitorado brasileiro, através da utilização de mecanismos que vieram eliminar barreiras referentes ao ato de votar.


Aliás, em alguns países, tem havido esforços para eliminar barreiras e facilitar o ato de votar, porém muito pouco tem sido feito para melhorar o engajamento dos cidadãos nas decisões políticas e no processo democrático. Vejamos o caso do voto aos 16 anos no Brasil. Não há dúvidas de que há uma ampliação do número de votos, mas não necessariamente da democracia. Mais votos para os políticos, porém quase nenhum engajamento da juventude na ampliação da democracia e de sua cidadania. Merece muita preocupação a mais recente pesquisa feita no Brasil sobre a compra de votos. Lamentavelmente, a compra de votos nas últimas eleições foi mais acentuada na faixa etária dos mais jovens.

Curiosamente, no Brasil, a maioria da população não acredita nos políticos e seus partidos, mas confia cegamente nos instrumentos que facilitam e eliminam as barreiras de levá-los ao poder, a exemplo do voto eletrônico. Considerando que a literatura tem demonstrado que, em várias partes do mundo, a tecnologia de informação vem reforçando as instituições, mas fazendo muito pouco em benefício da democracia, a nossa suposição é a de que, no Brasil, o voto eletrônico vem trazendo benefícios para os políticos e prestigio para a própria Justiça Eleitoral, em detrimento de nossa cidadania.


No final das eleições passadas, as autoridades brasileiras comemoraram, mais uma vez, o sucesso do voto eletrônico no Brasil, mas deixaram de informar à população brasileira, pelo menos até agora, que as pesquisas estão registrando que tivemos a maior compra de votos já registrada no país. Por outro lado, o percentual dos que não votaram em deputados federais aumentou em relação às eleições passadas. É possível que a campanha do voto nulo no Brasil tenha tido um efeito negativo nas eleições de senadores e deputados federais.


Nos países desenvolvidos, a utilização do voto eletrônico tem sido defendida como forma de aumentar o comparecimento às urnas. Ora, se este comparecimento está diminuindo no Brasil em relação às eleições de senadores e deputados federais, mesmo com o voto eletrônico, é um sinal de que a nossa democracia está enferma. Neste caso, o voto eletrônico está servindo apenas para ofuscar um problema maior – déficit democrático e cidadania reduzida.


Além de ser questionado do ponto de vista de segurança e elevados custos, qual o papel do voto eletrônico num contexto de elevada corrupção e crescente compra de votos? Qualquer reforma eleitoral que não venha orientada para reduzir o déficit democrático neste país, como já foi comentado neste espaço, servirá apenas para reforçar as perversidades que afastam os cidadãos da participação democrática. O pior é que a cada eleição que passa a situação está se deteriorando, a exemplo da insignificante representação feminina na Câmara dos Deputados.


Ademais, historicamente, diante da falta do engajamento dos cidadãos, construiu-se um império de corrupção, onde o dinheiro está sufocando a nossa democracia. O custo de ser eleito explodiu de tal forma que um cidadão comum jamais será eleito. Portanto, quando o custo médio de se ganhar um assento na Câmara dos Deputados, por exemplo, alcança as cifras de milhões de reais, não podemos mais nos referir ao Congresso Nacional como a “Casa do Povo”, pois tudo pertence aos maiores lances. Com isso, torna-se difícil se ter um governo do povo, para o povo e pelo povo.


O voto eletrônico no Brasil não poderá continuar sendo discutido apenas do ponto de vista de segurança e custos, mas em relação à democracia e à cidadania. É muito fácil para corporações e até para a própria Justiça Eleitoral tentar desmoralizar depoimentos desfavoráveis de acadêmicos brasileiros que suspeitam da segurança do voto eletrônico, mas, com certeza, será muito difícil defender as fragilidades de nossa democracia e enaltecer a cidadania desmoralizada de um povo que vota eletronicamente, mas ainda é carente de um mínimo de serviços de saúde, de educação e de segurança.

O problema dos cidadãos brasileiros não se restringe ao ato de votar. Democracia não é só votar, mesmo que seja eletronicamente. Os povos em países de democracia tradicional mais perfeita e de cidadania reconhecida ainda pensam sobre o papel do voto eletrônico para uma democracia. Espera-se que, nas discussões de uma reforma eleitoral, o voto eletrônico seja discutido em relação a nossa democracia e cidadania e não apenas como mecanismo de facilitar o ato de votar e o trabalho de administrar eleições, que resultam na eleição dos mais ricos e poderosos e até de gangsters que sufocam a nossa democracia com dinheiro sujo.

Este texto foi divulgado em 19/03/2007 no site:

http://congressoemfoco.ig.com.br/DetForum.aspx?id=15475