quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Sustentabilidade da Indústria de Mídia na Era Digital – Desafios e Ameaças

 

As ameaças à indústria de mídia são mais perigosas do que se pensa e um grande risco à democracia, principalmente quando se fala de uma mídia independente e com liberdade de expressão na produção de informação e notícias elaboradas por jornalistas, por exemplo. É preciso buscar o que pode ser feito para salvá-la. Recentemente o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que as instituições democráticas americanas estão sob ameaça como nunca. Para alguns pesquisadores, as plataformas de mídia social estão destruindo nossa democracia e que a classe política precisa avançar para protegê-la.

Com a expansão da Internet, o mercado de informações aumentou substancialmente, dando origem a graves desigualdades no mercado, após ter sido rapidamente dominado por gigantes do Vale do Silício, como Google e Facebook. A falha na prestação de informações como bem público é, em parte, uma falha de mercado que exige regulamentação e um código de conduta, principalmente quando se evitam as responsabilidades de editores e jornalistas. Nessa falha de mercado, as forças de oferta e demanda não funcionam adequadamente e a mídia perde a capacidade de atuar como vigilante e forte pilar da democracia.

Depois de 16 meses de uma investigação do Congresso dos Estados Unidos sobre Amazon, Google, Apple e Facebook foi emitido relatório com dura condenação sobre o poder de monopólio destes tech gigantes em segmentos de negócios chaves e o abuso na dominação do mercado. Segundo o relatório, as evidências são significantes para mostrar que a conduta anticompetitiva destas empresas impede a inovação, reduz a escolha do consumidor e enfraquece a democracia. Essas empresas têm muito poder e esse poder deve ser refreado e sujeito à supervisão e fiscalização adequadas. Nossa economia e democracia estão em jogo, diz o relatório. Estas descobertas prepararam o terreno para uma possível legislação futura destinada a refrear as Big Tech, mesmo com as autoridades antitruste do Departamento de Justiça e da Comissão Federal de Comércio se preparando para possíveis litígios contra algumas das empresas nos Estados Unidos.

Google e Facebook atualmente estão coletando em torno de 80 por cento de renda de publicidade em alguns países, o que torna difícil a competição entre outros participantes do mercado. Seus produtos são grátis e cobram taxas de publicidade abaixo do mercado, mas, por outro lado coletam todos os dados de seus usuários. Este mercado de práticas monopolísticas dos gigantes americanos de tecnologia resultou no desaparecimento de milhares de dólares de publicidade e a perda de emprego de milhares de jornalistas, com o fechamento de vários jornais ou outros meios de comunicação. Diante da natureza e poder destas plataformas, as ações de interferência e discussões das ideias de um mercado de mídia não pode se limitar a um único país, embora alguns países desenvolvidos, a exemplo de França, Canada e Reino Unido, já tomaram a frente para enfrentar estas forças monopolísticas poderosas, impondo um código de conduta nos monopólios da web, reforçado com penalidades financeiras expressivas.

Observa-se, assim, uma redução drástica da sustentabilidade nas empresas de mídia, que precisa ser estudado do ponto de vista social e econômico para se avaliar os efeitos da transformação digital, medir perdas e lucros, tendências do emprego/desemprego jornalístico e a evolução do mercado de publicidade online.  Não são só as práticas monopolísticas que afetam o setor, carente de modelos de negócios sustentáveis e do papel de incentivos regulatórios. O ecossistema de informação e mídia está em transformação com os avanços tecnológicos que criam novas oportunidades nas áreas de liberdade e pluralismo da mídia, mas também estimulam novas fontes de riscos, incluindo a divulgação de má informação, desinformação e o discurso do ódio em escala nunca visto. Lembrar, ainda, que em muitos países, a mídia local/regional e comunitária não garante a sustentabilidade e independência, sem ajuda do Estado na forma de subsídios. Alguns estudos de marketing sobre mídias sociais se limitam às experiencias dos consumidores e a geração de lucros e receitas de vendas para as empresas, esquecendo os fatores sociais de efeitos danosos.

Portanto, os maiores riscos para uma pluralidade do mercado vêm da concentração de propriedade da mídia, que beneficia as grandes plataformas, e da falta de uma regulamentação apropriada. As gigantes plataformas online apoderam-se da maior parte do mercado de publicidade, quebrando o modelo tradicional dos negócios de notícias na mídia em setores vulneráveis como jornais e a indústria da mídia local. Outros riscos estão relacionados com a falta de transparência de propriedade da mídia e sua influência nos conteúdos editoriais, diante da falta de pluralismo político como condição para a democracia e cidadania democrática. É preciso ainda avaliar a distribuição de recursos para a mídia e o controle político dos conteúdos e organizações, especialmente da mídia de serviços públicos.

Diante destas ameaças e outros desafios ao jornalismo profissional e organizações de mídia tem sido recomendado que, sem ajuda pública e regulamentação dos mercados digitais, o jornalismo profissional independente, em perigo, se una a organizações de mídia para pedir à comunidade internacional, ao governo americano, comunidade europeia e outros a adoção de políticas e orçamentos que correspondam à urgência e escala da crise, principalmente nos países em desenvolvimento, apontando as falhas do mercado, que impedem a diversidade e pluralidade da mídia.

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