A Bela Ilusão e Degradação Ética da Copa do Mundo de 2026
A maioria
dos brasileiros demonstrou para o mundo o pouco interesse pela Copa de 2026, em
pesquisa realizada alguns dias antes do evento. A grande lição disto é que os
brasileiros aprenderam um pouco de sociologia sobre a ilusão da Copa. Agora,
com a prova da degradação ética da Copa do Mundo de 2026 no país, dificilmente
aquele espetáculo envolvente existirá mais.
Aliás, os
exemplos de degradação ética na Copa de 2026 não ocorreu só no Brasil, mas em
várias partes do mundo. No caso do Brasil, é revoltante e repugnante o que
disse o jurista e professor, Conrado Hübner Mendes, sobre a participação do
ministro Gilmar Mendes na Copa, cujo filho é um dos decisores principais da
CBF.
Para Hübner
Mendes, a “comunhão entre CBF e STF está documentada. E nos autoriza a
desconfiar, de boa-fé, dos interesses por trás de cada decisão, cada liminar
anulatória, cada contrato de patrocínio, cada convocação, cada escolha para
cobrador de pênalti.”
Para uma
sociedade que já passou pela Copa de 2014, marcada por questões de corrupção e
desigualdades, tem muito o que contar. Ainda
hoje surgem notícias frequentes sobre instalações esportivas que se tornaram
“elefantes brancos”, tanto da Copa do Mundo de 2014 quanto das Olimpíadas do
Rio em 2014 – símbolos da política de “pão e circo” e de lucros vultosos para
as elites bem-posicionadas.
Aliás, em
2014, o Partido dos Trabalhadores (PT), segundo a imprensa, exemplificou como
fazer a integração da Copa do Mundo à lógica neoliberal. Embora o governo Petista
a tenha promovido como um símbolo de progresso nacional e projeção global, o
evento funcionou, na prática, como um campo de testes para a militarização
urbana e o deslocamento de comunidades carentes.
Isso
incluiu o despejo forçado de mais de 200 mil moradores, a destruição de
habitações informais, o emprego de forças policiais militarizadas, a criação de
“zonas de exclusão” próximas aos estádios, a criminalização de protestos e o
repasse de bilhões em dinheiro público para empresas privadas.
Por conta
disto, o governo do PT foi elogiado por liberais ocidentais como um modelo de
“governança progressista”, que atuou como agente da FIFA e da burguesia
brasileira. Utilizou gás lacrimogêneo, balas de borracha e prisões em massa
para reprimir protestos generalizados.
As favelas
foram militarizadas sob o pretexto de “pacificação”. A Copa de 2014 expôs a
verdadeira natureza do neoliberalismo: a fusão entre influência corporativa e
violência estatal, a mercantilização de espaços públicos e a priorização do
capital global em detrimento das necessidades sociais.
Fica
demonstrado aqui que as políticas públicas e sociais entre esquerda e direita
no Brasil são basicamente as mesmas ou inexistentes. Por conta disto, não há
avanços destas políticas, cujos resultados são os registros das desigualdades
sociais.
O que é
mais estranho é o apoio do governo Petista à FIFA, organização vista como um
aparelho burguês transnacional. Numa investigação ética conduzida pelo
ex-promotor norte-americano, Michael Garcia, foi constatado que a cultura
organizacional da FIFA se baseava na ganância, no sigilo e na corrupção.
Embora os
governos tentem justificar os enormes custos de sediar a Copa prometendo US$ 1
bilhão em gastos de turistas, já foi dito que "geralmente são os grandes
patrocinadores que lucram com o dinheiro extra, e não as empresas locais".
Não é de surpreender, então, que 12 das
últimas 14 Copas do Mundo realizadas desde 1966 tenham resultado em prejuízos
financeiros para os países-sede. Diante de tudo isso, é conveniente que os
acordos com as cidades-sede também isentem a FIFA de responsabilidade por
quaisquer perdas decorrentes de protestos ou greves!
Toda essa
generosidade com recursos públicos ocorre por iniciativa de uma organização que
possui um histórico sórdido de corrupção e escândalos. Embora a FIFA se
apresente como uma entidade "sem fins lucrativos", há pouca
fiscalização, e milhões de dólares que deveriam ser repassados a
organizações
regionais acabaram sendo desviados por dirigentes.
Segundo a
professora Emily Ryall, da Universidade de Gloucestershire, Inglaterra, por
trás de narrativas otimistas sobre as Copas existe um conjunto de questões
éticas que exigem um exame mais atento, incluindo algumas que desafiam
pressupostos comuns sobre onde — e por quem — o esporte é instrumentalizado
para fins políticos e econômicos. No Brasil, a sem-vergonhice de interesses políticos nas Copas é demais.
A
comunidade acadêmica deve explorar a interferência de instituições públicas
sobre a Copa de 2026, a exemplo do que fez o Professor Hübner Mendes, uma vez
que o capitalismo está arruinando o esporte. Em vez de uma celebração do jogo,
a Copa do Mundo transformou-se em uma festa para os ricos. Se a Copa do Mundo
quiser permanecer sendo uma celebração genuína do esporte, em vez de um
instrumento de poder e lucro, as tensões éticas não podem ser ignoradas.
Os
jogadores, que poderiam ter oferecido um belo jogo, fortaleceram uma bela
ilusão à sociedade brasileira, ao não desembarcarem no Brasil no voo de volta.
Devem ter partido para a Pátria que os acolheram, num deboche ao Brasil e aos
brasileiros, mais uma vez derrotados técnica e politicamente.
A Copa do
Mundo não é mais um torneio do povo e o esporte que pertence a todos: o jogo
praticado nas favelas, nos conjuntos habitacionais populares, nos parques e nas
escolas. Para que a classe trabalhadora possa desfrutar do "jogo
bonito", como é conhecido, precisamos trazê-lo de volta para nossas mãos
(ou nossos pés).

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