Na Constipação Duas Bactérias Comem o Muco Intestinal
Nova pesquisa científica em constipação ou intestino
preso mostra que existem duas bactérias (Akkermansia muciniphila e Bacteroides
thetaiotaomicron) que comem o muco intestinal, mostrando que os atuais métodos
de tratamento do intestino preso são falhos, sobretudo o de empurrar fibras nos
pacientes.
Há poucos dias pesquisadores da Universidade de
Nagoya, no Japão, identificaram que estas duas bactérias intestinais, atuando
em conjunto, contribuem para a constipação crônica. Esses microrganismos
destroem a camada de muco intestinal, conhecida como mucina colônica, que
normalmente lubrifica o cólon, hidrata as fezes e protege as paredes intestinais
da invasão bacteriana.
O intestino grosso é revestido por uma espessa camada
de muco que funciona como um “escorregador” natural para as fezes. Com a
destruição desta camada por micróbios, que se alimentam agressivamente dela,
acaba-se a lubrificação, sendo as fezes ressecadas por entrarem em contato
direto com a parede intestinal, tornando-se duras como pedras.
Neste caso, os laxantes osmóticos (que puxam água) ou
estimulantes (que contraem o intestino) não conseguem resolver o atrito causado
pela falta de muco. Assim sendo, a degradação da camada protetora deixa milhões
de pessoas com sintomas resistentes aos tratamentos convencionais.
O estudo, detalhado na revista Gut Microbes, também
revela por que os laxantes muitas vezes não são eficazes para quem sofre desse
problema persistente. Comer mais fibras talvez endureça mais as fezes. Como o
problema principal reside na erosão da mucina e não na lentidão do trânsito
intestinal, os medicamentos que visam a motilidade (capacidade de se mover) intestinal
oferecem pouca ajuda.
A pesquisa foi mais além, ao nos mostrar a relação do
nosso intestino com outras doenças severas, incluindo a doença de Parkinson,
que começa no intestino e depois invade o sistema neurológico. Pacientes com
Parkinson enfrentam a constipação durante 20 a 30 anos.
Sabemos que os micróbios habitam a Terra há centenas
de milhões de anos, muito mais tempo do que os humanos. O eixo
intestino-cérebro (EIC) representa uma via de comunicação bidirecional. Essas comunicações
ocorrem entre o sistema nervoso central (SNC), o sistema nervoso entérico (SNE)
e os centros emocionais e cognitivos do cérebro.
O campo de pesquisa sobre o eixo intestino-cérebro cresceu significativamente nas últimas duas décadas. A sinalização ocorre entre a microbiota intestinal e o cérebro por meio das vias neural, endócrina, imunológica e humoral.
Um conjunto substancial de evidências indica que o eixo
intestino-cérebro desempenha um papel fundamental em várias doenças
neurológicas, sendo os alimentos de grande importancia para nossa saúde, exceto os ultraprocessados.
Na análise da pesquisa japonesa, acima citada, foi
revelado que pacientes com a doença de Parkinson possuem níveis elevados da
dupla de bactérias comedoras de muco, reforçando a teoria de que o Parkinson
pode começar no intestino (Eixo Intestino-Cérebro).
Espera-se que em breve surjam testes de microbiana
fecal disponíveis comercialmente, de modo que possam identificar a existência
de comedores de muco no nosso intestino. Por enquanto podemos usar alguns
alimentos mucilaginosos, a exemplo do quiabo e babosa, que podem formar um gel
temporário para lubrificar o cólon e aliviar os sintomas, porém não substituem
a mucosa intestinal humana, que está sendo devorada por bactérias.
Um fato importante desta pesquisa é que os
pesquisadores modificaram uma das bactérias, a B. thetaiotaomicron, para
impedir que ela degradasse a mucina. Em seguida, transplantaram essa bactéria,
juntamente com a outra, A. muciniphila, para camundongos.
Curiosamente, a mucina do cólon dos camundongos
permaneceu intacta. E os animais mantiveram o funcionamento regular, sem sinais
de constipação. Os resultados indicam que ambas as bactérias juntas, e não
apenas uma delas, representam uma ameaça à mucina.
Não se conhece ainda os níveis de disseminação destas
bactérias em humanos, mas os resultados podem abrir caminho para novos
tratamentos para a constipação crônica, especialmente para pessoas que não
encontram alívio com os medicamentos e remédios já disponíveis no mercado.
Segundo uma estimativa, uma em cada cinco pessoas na América do Norte pode
sofrer de constipação crônica, sendo mais comum em mulheres e idosos.

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