Desafios do Voto Eletrônico – Criptografia e Transparência
O grande desafio do voto eletrônico no Brasil e no mundo é a falta de transparência, razão pela qual as grandes democracias não o utilizam. As mais sofisticadas criptografias melhoraram, até certo ponto, a segurança do voto, mas a transparência e, consequentemente, a confiança fica com o voto de papel – cédulas eleitorais.
Por
séculos, as eleições democráticas se basearam em cédulas de papel como
fundamento da confiança. A votação em papel é simples, auditável e familiar. Os
cidadãos podem acompanhar a votação, a contagem e o armazenamento dos votos.
Embora esse processo físico seja mais lento, oferece muita transparência e
verificabilidade que conquistou a confiança generalizada do público.
Na era
digital, porém, governos e organizações têm buscado maneiras de tornar as
eleições mais acessíveis, eficientes e escaláveis. O voto eletrônico (e-voting)
promete apuração mais rápida e participação remota, além de oferecer o
potencial de fortalecer a segurança por meio de técnicas criptográficas como
criptografia, assinaturas digitais, apuração homomórfica e provas de
conhecimento zero.
Apesar
dessa promessa, a adoção em larga escala do voto eletrônico tem sido limitada.
Os sistemas em papel, embora imperfeitos, são resistentes a certas ameaças
digitais, enquanto o voto eletrônico introduz novos riscos: manipulação interna
de sistemas, ataques cibernéticos e o desafio de equilibrar o anonimato com a
verificabilidade.
Mesmo
sistemas criptográficos avançados, embora poderosos em teoria, devem lidar com
as realidades de usabilidade, escalabilidade e confiança pública. Reforçando o
anonimato e privacidade do eleitor não o ajuda se ele quer a verificabilidade
de seu voto. Infelizmente, o voto eletrônico tirou este poder sagrado dele.
Percebe-se,
assim, a importância da transparência na geração de confiança no processo
eleitoral. Por outro lado, a democracia se baseia na confiança, que está se
deteriorando em relação ao voto eletrônico. No caso do Brasil, a polarização
política tem levado alguns eleitores só aceitarem os resultados eleitorais
quando seu lado vence.
Portanto, o
voto eletrônico é um desafio que pode ser facilmente resolvido através do
controle social do voto, envolvendo a academia, forças armadas, partidos
políticos e a sociedade como um todo. Na
eleição anterior, o TSE criou uma Comissão da Transparência para tratar do voto
eletrônico, que parece ter morrido.
Isso
significa que devemos descartar as urnas eletrônicas depois de 30 anos? Não
necessariamente. Todo sistema eleitoral, digital ou analógico, tem falhas. É
preciso adequá-lo aos requisitos de transparência e reduzir complexidades, de
modo que o eleitor comum consiga entendê-lo, pois sem uma certa compreensão do
sistema eleitoral, dificilmente se vai acreditar nele. Isto não será resolvido
pela mascote “Pilili”.
No momento a
grande preocupação e desafio é a erosão
de confiança na própria máquina da democracia, nos Poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário. Criou-se no país um império de corrupção, onde o
dinheiro de poderosos e gangsters está sufocando a nossa democracia enferma,
aumentando o déficit democrático e reduzindo
a cidadania.
Como dito
acima, os sistemas de votação eletrônica são muito complexos. Para alguns
observadores, essa complexidade favorece aqueles que buscam minar a democracia.
Nos últimos anos, regimes autoritários aprimoraram uma estratégia
assustadoramente eficaz para corroer a fé na democracia, semeando
incessantemente dúvidas sobre as ferramentas usadas para conduzir as eleições.
É uma campanha contínua para fragmentar a confiança cívica, fraudar a
democracia, especialmente quando seu lado perde.
Não há
evidências de que alguém tenha conseguido invadir urnas eletrônicas e alterar
votos e os ciberataques aos sistemas eleitorais não precisam ser bem-sucedidos
para surtirem efeitos. Uma única tentativa frustrada, amplificada por manchetes
sensacionalistas e câmaras de eco político, é suficiente para abalar a
confiança pública. Ao alimentar a ansiedade existente sobre a complexidade e a
opacidade dos sistemas digitais, os adversários criam terreno fértil para a
desinformação e as teorias da conspiração.
Temos a
experiência do Brasil, quando a extrema direita, através de Bolsonaro,
desencadeou espirais de suspeitas sobre as urnas eletrônicas, depois de usá-las
durante décadas. Assim sendo, não basta que as eleições sejam seguras – os
eleitores também precisam perceber que elas são seguras e transparentes.
Esta foi e
ainda é a grande falha do TSE que não considerou a educação pública sobre
eleições ser tão vital para a segurança eleitoral quanto firewalls e redes
criptografadas. É fundamental que os eleitores entendam como as eleições são
conduzidas, como são protegidas e como as falhas são detectadas e corrigidas.
Autoridades
eleitorais, grupos da sociedade civil e pesquisadores podem ensinar como
funcionam o sistema eleitoral de votação, as auditorias, promovendo
demonstrações de verificação de código aberto e garantindo que os processos
eleitorais de alta tecnologia sejam compreensíveis para os eleitores – controle
social do voto.
Pesquisas
recentes mostram que atualmente, infelizmente, não dispomos da tecnologia
necessária para oferecer um método seguro de votação eletrônica. Além disso,
não há mecanismos técnicos que garantam que um sistema computacional possa
gerar resultados precisos e que todas as camadas do sistema sejam modificadas.
São estas
mesmas pesquisas que mostram ser desejável considerar o desenvolvimento de
sistemas mais leves que ainda possam satisfazer as propriedades de segurança e
transparência necessárias, fugindo dos altos custos computacionais.
As eleições
não se resumem à contagem de votos – elas se referem à crença das pessoas de
que esses votos importam, devendo a confiança ser tratada como um patrimônio
nacional.

Comentários