COVID-19 nas Corporações Cargill e JBS no Brasil e Canadá

 


A Pandemia global de COVID-19 expôs os riscos e vulnerabilidades das cadeias de suprimentos em todo o mundo. Os governos e corporações vem apoiando a concentração de terras e produção de alimentos, mas esqueceram pontos chaves e cruciais tais como saúde, direitos humanos, mudanças climáticas, devastação das florestas e insegurança alimentar na gestão da globalização da indústria de alimentos. Chegou o tempo de mostrar agora que o discurso de sustentabilidade destas corporações é o de como se ganhar dinheiro. Já discutimos aqui que a concentração de terras no Brasil tornou o setor da agricultura insustentável e a concentração de frigoríficos no país segue o mesmo caminho.

O surto de COVID-19 nas corporaçoes  abateu a cadeia de suprimento da indústria de carnes de forma muito dura em vários países. Nos Estados Unidos, no governo Trump, estas indústrias foram protegidas, no sentido de que não seriam fechadas como serviços essenciais. A Cargill, corporação americana, chegou a ser fechada no Canadá, quando o vírus atingiu dezenas de funcionários. A JBS, corporação brasileira, não chegou a ser fechada no Canadá, mas dezenas de funcionários foram também alcançados pelo vírus. Diante da natureza do trabalho nestes frigoríficos, onde se trabalha quase que coladinho um ao outro, é inevitável a transmissão do vírus. Com o fechamento destes frigoríficos, o preço da carne foi às alturas e muitos deixaram de tê-la como alimento.

É incrível como os governantes apoiam as estruturas das cadeias de suprimentos existentes, sem terem as informações necessárias. As cadeias de suprimentos modernas são um intricado de redes de relações de compras, unindo centenas de empresas de vários países, enquanto muitas empresas individuais mapeiam seus fornecedores para avaliar o potencial de vulnerabilidades. O que parece interessar aos governantes é acessar produtos quando querem cobrar impostos. Esta falta de informações deixam os governantes não apenas cegos sobre as vulnerabilidades e gargalos das cadeias de suprimentos, além de não terem o mapeamento necessário para guiar intervenções, evitando consequências involuntárias. Muito precisa ser feito pelos governantes nas cadeias de suprimentos neste mapeamento entre várias indústrias, depois de se escolher que indústrias são de grande importância para a prosperidade e segurança nacional.

No Brasil, a Cargill atua no processamento e distribuição de grãos e oleaginosas, mas pouco se conhece de suas atividades, tornando-se difícil avaliar o que a empresa chama de práticas éticas, transparentes e sustentáveis. Governos anteriores incentivaram a criação da corporação JBS no Brasil, através de recursos do BNDES, com juros subsidiados e outras facilidades absurdas, mas agora a COVID-19 revela a insustentabilidade desta empresa, que pode até ser um sucesso para seus acionistas, mas é uma carga pesada para a sociedade brasileira. Diante de várias ações na Justiça do Trabalho no Brasil torna-se necessário saber qual a posição desta empresa em relação aos direitos humanos no Brasil e no mundo. Além disto, as associações sindicais do Brasil e Canadá precisam mostrar se há diferenças no tratamento de seus empregados entre os dois países. Empresas que não reforçam a cidadania e direitos humanos de seus empregados jamais poderão ser vistas como empresas sustentáveis. Além disto, a concentração de frigoríficos no Brasil, até certo ponto incentivada pelo governo, foi o caminho para a insustentabilidade da indústria de carnes no país.

O coronavírus demonstrou para o mundo que uma rede diversificada de fornecedores estrangeiros pode ser mais resiliente e responde de forma melhor aos choques do que uma rede concentrada de fornecedores domésticos. Neste caso, é preciso estudar a resposta da JBS ao mercado de carne no Brasil durante a pandemia. A redução de preços da carne pode se dá por conta dos baixos salários pagos aos empregados, isto sem falar nas ameaças sofridas durante o COVID-19 nas corporaçoes.  Que a Cargill e JBS abram suas portas para se estudar seu conceito de sustentabilidade envolvendo saúde, direitos humanos, mudanças climáticas, devastação das florestas e insegurança alimentar.

Mudanças são necessárias e um novo mundo é possível e vale a pena persegui-lo. A retórica de alguns sobre cadeia de suprimentos pode ser desviada para o protecionismo arcaico, mas são evidentes as preocupações sobre os riscos e vulnerabilidades advindos da globalização e os governantes devem seriamente levar em consideração as ameaças destas cadeias de suprimentos na economia global, com intervenções e controle. Já existem sindicatos preocupados com as violações de direitos ocorridos no Brasil durante a Pandemia por grandes corporações, como Cargill e JBS, que podem ser reproduzidas em outros países. Similarmente, o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, começam a definir que produtos do Brasil devam ser consumidos e que não estejam afetando as condições climáticas e devastação das florestas. Espera-se que o comportamento do consumidor comece também a mudar em relação à insegurança alimentar destas gigantes cadeias de suprimentos.

Os riscos de saúde estão vindo de todos os lados e as cadeias de suprimentos da indústria de carnes expõem uma ameaça à saúde global. Já vimos isto no passado com a doença da vaca louca, a gripe suína e agora com a COVID-19. Num futuro breve teremos as superbactérias devido ao uso excessivo de antibióticos. Temos que nos preocupar com estas questões e colaborar com as cadeias de suprimentos da indústria de alimentos que queiram se voltar para um consumidor cada vez mais voltado para um consumo sustentável e para as exigências da segurança alimentar.

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